No mezanino do estacionamento de um prédio emblemático da arquitetura paulistana funciona hoje o Espaço Abrahão e Rosa, inaugurado em 2022. O Edifício Guaporé está situado na Rua Nestor Pestana, no bairro da Consolação, em São Paulo, próximo à Praça Franklin Roosevelt e a poucos metros do Teatro Cultura Artística. Projetado em 1956 pelo arquiteto alemão Adolf Franz Heep e construído pela Otto Meinberg S.A., a edificação integra um conjunto que ajudou a consolidar o mercado imobiliário de habitação coletiva em São Paulo na metade do século XX. O endereço também guarda parte da memória empresarial da cidade, pois ali funcionou uma importante oficina de um dos primeiros endereços da Porto Seguro.

O programa original do edifício combina comércio no térreo, dois pavimentos destinados a atividades comerciais e, acima, unidades residenciais. A solução era moderna para a época ao integrar diferentes usos e fortalecer a relação com a rua. Hoje, o térreo abriga um café badalado que reforça o movimento cotidiano do edifício e amplia sua integração com a cidade. A fachada chama atenção pelos elementos vazados em concreto que funcionam como brise e emolduram uma janela central. A proposta dialoga com referências da arquitetura brasileira, como o Parque Guinle de Lucio Costa e o edifício Plavinil Elclor de Rino Levi, evidenciando a sintonia de Heep com os debates arquitetônicos de seu tempo.

A trajetória de Adolf Franz Heep ajuda a compreender a relevância da obra. Nascido em 1902, em Fachbach, na Alemanha, o arquiteto formou-se na Escola de Artes e Ofícios de Frankfurt, instituição que promoveu profundas transformações no ensino da arte e da arquitetura. Foi aluno de Walter Gropius e Adolf Meyer e, entre 1924 e 1928, trabalhou com Meyer na prefeitura de Frankfurt, período marcado pela adoção de métodos construtivos industrializados, como painéis pré-fabricados e caixilharias padronizadas.

Edifício Guaporé - Foto: Giovani Daniel
Edifício Guaporé - Foto: Giovani Daniel

Em 1928 mudou-se para Paris, onde colaborou com Le Corbusier por quatro anos. Posteriormente desenvolveu projetos de edifícios residenciais verticais para a classe média em parceria com Jean Ginsberg. Após a Segunda Guerra Mundial chegou ao Brasil e fixou-se em São Paulo. Nas décadas de 1950 e 1960 teve papel decisivo na consolidação de um modelo vertical de moradia na cidade, assinando cerca de duas dezenas de edifícios residenciais. Entre suas obras mais conhecidas estão o Edifício Itália, o Edifício Lausanne e o Novotel Jaraguá. Também atuou como professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e integrou o Conselho de Arquitetura da Organização das Nações Unidas para países latino-americanos.

O edifício passou por uma reforma em 2009 conduzida pelo escritório Terra e Tuma Arquitetos, formado por Danilo Terra, Pedro Tuma, Juliana Assali, Juliana Iha e Adriana Aoki. A intervenção atualizou o acesso e a calçada, adequando-os às normas de acessibilidade e às novas demandas de uso. Também foi apresentada proposta de recuperação das fachadas, ao longo do tempo descaracterizadas por intervenções sucessivas.

Edifício Guaporé - Foto: Milena Leonel | Refúgios Urbanos
Edifício Guaporé - Foto: Milena Leonel | Refúgios Urbanos

É nesse contexto histórico e arquitetônico que o Espaço Abrahão e Rosa se insere. O local é um coworking inteiramente voltado à atuação de organizações do terceiro setor. O projeto é assinado pelos arquitetos Renato Siqueira e Fernanda Berlfein, da TriploR Arquitetura. Idealizado pelo empresário Jayme Brasil Garfinkel, acionista controlador da Porto, o nome é uma homenagem a seus pais, Abrahão e Rosa Garfinkel. Desde a inauguração, o Instituto Ação Pela Paz, do qual Jayme é presidente e cofundador, realiza a cogestão do espaço, contribuindo para a coordenação e o desenvolvimento das atividades ali promovidas.

O foco do Espaço Abrahão e Rosa é apoiar e conectar pessoas e instituições que prestam serviços à sociedade civil, oferecendo um ambiente estruturado para as rotinas de trabalho, com preços acessíveis. Ao ocupar o mezanino de um edifício histórico na capital paulista, o coworking reafirma a vocação do endereço para abrigar iniciativas que articulam memória, inovação e compromisso público.

Conheça um pouco mais sobre o arquito Franz Heep e sua obra no vídeo do canal São Paulo nas Alturas, do jornalista Raul Juste Lores: